Chiquinho de Assis
Ouro Preto, Minas Gerais, Brazil
Sou Músico, Compositor, Professor e Produtor Cultural. Graduado em Educação Musical UFOP, tenho mestrado em Música e Sociedade UFMG. No mais, trabalho pela defesa e pelos direitos à manifestação artística em sua ampla liberdade, e pela criação e viabilização de ferramentas que legitimem a profissão artística no cenário brasileiro.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ninica


Ninica

(Chiquinho de Assis – citação de domínio público)


Ô Ninica, ô Ninica

Ô Ninica, “Filha de Maria”

Menina que sobe, que desce, que fala cantando

Que roda a cidade de um lado pro outro

Vê quem ta chegando

Veio visitar

Senhora que é roca da fala

Mas que traz segredos

Todos escondidos por entre seus dedos

Tão soltos na flauta querendo cantar:

Passarinho na gaiola fez um buraquinho

Voou, voou, voou, voou

E a Ninica que gostava tanto do bichinho

Chorou, chorou, chorou, chorou

Sabiá fugiu pro terreiro

Foi cantar lá no abacateiro
E a Ninica vive a chamar

Vem cá sabiá, vem cá


A Ninica diz soluçando

Sabiá estou te esperando
Sabiá responde de lá

Não chores que eu vou voltar...

Ô Ninica, ô Ninica

Ô Ninica, “Filha de Maria”



sexta-feira, 4 de julho de 2008

Rainha da Pipoca, Rei do Amendoim: ERA uma vez...


Chiquinho de Assis

Passou-se o mês de Junho. Mês que traz as festas juninas, embora nos últimos anos temos vivenciado até festas julhinas, ou já chegaram nas agostinas? Será? Acho que não! (rsrsrsrs)

Pois é. Em Junho os santos Antônio, João e Pedro emprestam seus nomes às festas regadas à fogueira, pipoca, quentão, vinho quente, pé de moleque, canjica e agora votos. Mas como assim, votos?

Sim. Levei um enorme susto essa semana quando me deparei com alguns garotos que me indagaram:

– “Moço, compra um voto na minha mão?”

Sorri e respondi:

– “Meninos isso tá dando um problema medonho. Em Brasília já processaram alguns. Como isso chegou até aqui?”

È claro que os meninos não entenderam nada. Olharam-me de forma estranha e logo se foram.

Mas aqui chamo a uma reflexão: como mudar processos culturais que se entranham na nossa cultura e tendem a se apodrecer com o passar dos anos? De que adianta a justiça brasileira atuar com tanta objetividade coibindo ações como essa, da compra de votos, se as nossas crianças são iludibriadas nas escolas a ter atitudes como essas? Para algumas escolas a coisa funciona assim: quanto mais votos os alunos vendem, mais são as oportunidades de se sagrarem rainhas e reis DA PIPOCA, DO AMENDOIM, DA CANJICA, DO PÉ-DE-MOLEQUE, ETC. Pequenos reis e rainhas que, incentivados por instituições de ensino, INOCENTEMENTE começam a fazer parte da ignorância gerida pela corrupção que insiste em assolar o Brasil.

Há os que podem afirmar que não se deve mexer nas tradições. Há os que dizem ser exagero refletir desta forma.

“ – Os meninos estão apenas vendendo alguns votinhos, é brincadeirinha...”

“ – Ah deixa de exagero sô”

Contudo, nunca é demais lembrar que em outros tempos ousava-se, por tradição, cortar a cabeça de uns, dar surras – com varas de marmelo – em outros, queimar as supostas bruxas, bodocar passarinhos, e cometer inúmeras atrocidades. Sim. ERA tradição. Numa outra ERA. Por que então, não deixar essa ERA e em nome da tradição agir e reagir pelo bom senso?

Viva Santo Antônio, São João e São Pedro, que atravessaram séculos se legitimando como as maiores figuras do mês de Junho e, é claro, sem ter que comprar votos.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Abril



No mês de abril, são comuns ao calendário brasileiro três comemorações que sempre me atordoaram, e muito. Em ordem são as seguintes: o dia do índio, a morte de Tiradentes e o descobrimento do Brasil. Mas reflitamos...

Do ponto de vista dos índios, quanto sofrimento... A demarcação de suas áreas vem se arrastando a dezenas de anos e sempre é cercada de dilemas. Enquanto isso, o povo indígena sofre cada vez mais com o nosso preconceito. Preconceitos vindos das fabricações a que sempre estivemos sujeitos. E nos ensinaram na escola a ver o índio de arco e flecha na beira de um rio, ou amassando tapioca e fazendo festa, ao huhuhuhuhu... E até hoje, muitos acreditam ser absurdo um índio ter um carro, uma televisão, uma antena parabólica, casa, roupas, rádios, etc. e se esquecem que, a pouco tempo atrás, eram os negros que se viam marginalizados quando conseguiam posses e bens materiais. Mas o esquecimento é natural de um povo sem memória, pois o índio está muito mais perto do que pensamos. Aqui mesmo na nossa região fora registrada a presença de tribos indígenas, mas nós? Sequer sabemos da memória dos nossos que foram vitimados em face de diversos confrontos com os que aqui chegavam. E aqui cito confronto, não somente no sentido da luta armada, mas também da luta ideológica, da perda da identidade, da aculturação. E como herdeiros nos esquecemos e somos coniventes com esta falta de memória. Onde está a memória dos nossos índios? Ao menos, não podemos negar o quão comum é encontrarmos no dia-a-dia rostos tão marcados por essas etnias em nossas terras. E por falar em terras, ficamos revoltosos e por falar em reviravolta vamos ao Tiradentes...

Pois é, e se lembram do mártir... Joaquim José da Silva Xavier. O homem vindo de São José Del Rei, hoje cidade de sua alcunha: Tiradentes. Terra do alferes, do militar, do preso, julgado, condenado e morto. Ou assassinado? Da luta à luta...

E o morro de Santa Quitéria, hoje praça Tiradentes, na ocasião das solenidades do 21 de abril, se encontra repleto. Ali se encontram homens, mulheres e crianças. Alguns curtindo a felicidade de levantar bandeiras, gritos e cantos, por vezes sem saber “pra que” e “por que”. Mas gritam e como gritam... Outros, para verem “de perto” os políticos, os artistas e as autoridades, que por vezes, aqui aparecem e são condedorados. Há também os manifestantes que contra e a favor exibem uma extensa lista de tópicos: políticas, regimes, políticos, economias, empregos, salários, terras, tetos e por aí vai... Mas no entorno estão os policiais, alguns em traje de gala outros em trajes comuns, mas “pela ordem” separaram o povo dos representantes do povo, como que numa alusão metafórica a um conto de final infeliz. E lá estão. Súditos, guardas, dragões, políticos, autoridades e o povo. Palmas, vaias, apertões, suores, tochas, piras, flores e coroas, tudo aos pés do mártir que, por ironia do gesto, está de costas para o palácio do governador. Muita homenagem. Mas uma certeza meu caro Joaquim José, o povo tem almejado ser mais inconfidente que a primeira inconfidência aristocrática que aqui jazia. E uma coisa já é certa, as nossas forças militares te tem como patrono e assim o povo se sente “melhor” impedido de se aproximar. Movimento interrompido, tropas oficiais e viva o Brasil...

Justamente no dia seguinte à lembrança inconfidente, se comemora a descoberta do Brasil. Cartões corporativos, CPIs, fundos de participação, operações passárgadas, etc. E depois do mês de abril, resta entender um pouco mais desta descoberta antecedida por tristes e vivos fatos. Com ou sem memória?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Prouni: Balança Educacional Favorável


Chiquinho de Assis

Recentemente, o Democratas, antigo PFL, e a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino bateram às portas do Supremo Tribunal Federal, questionando a inconstitucionalidade dos atos que criaram o Prouni. Bem, aqui cabe uma reflexão sobre este assunto que há tempos vem sendo palco de polêmicas. Creio eu que, em grande parte, tais polêmicas são protagonizadas por uma parcela da sociedade de maior poder aquisitivo, embasada por questões que pouco observam os avanços de uma legitimidade educacional no país. O Prouni, até hoje, atendeu mais de 300 mil estudantes. E milhares deles já estão pré-selecionados para a próxima rodada de matrículas.

Se a questão sustentada era com relação à legalidade de ações afirmativas baseadas em critérios de renda e de raça para o acesso ao ensino superior, vamos lá:

1. Do ponto de vista da renda: para receber uma bolsa, por exemplo, uma integral, a renda per-capita familiar do candidato não pode ser superior a 1,5 salário mínimo. Ora, basta dar uma volta pelos lares brasileiros e constatar que a grande maioria das famílias não tem esses rendimentos. Do contrário, a renda de um casal com 2 filhos teria que estar em torno de R$ 2.490,00. Logo, são poucos os brasileiros que sabem...

2. Quanto à questão racial: há os que alegam que pensar o Brasil em torno das raças é um passo propício ao preconceito racial – como se não existisse... Mas podemos elucidar uma solução fácil e objetiva. Basta substituir a palavra raça pela palavra origem e vamos perceber que os estudantes de origem afro-descendente ou indígena são os que mais sofrem com o atual sistema educacional brasileiro. Pois não é difícil entender o vestibular, atual, como uma ferramenta que mede muito mais o investimento dos pais na educação de seus filhos do que realmente a propensão ao conhecimento funcional – objetivo do ensino superior.

Muitos, atualmente, entendem o Prouni como uma ferramenta assistencialista. Uma assistência que ampara o que chamam de “os analfabetos funcionais”, pessoas que sabem escrever o próprio nome, mas não dominam a leitura e as somas matemáticas básicas. Há ainda os que dizem que tal programa gera um crescimento do setor privado a nível superior. Há também os que afirmam que o grande investimento deveria ser na educação fundamental. Contudo, há que se concordar que, num passado recente e ainda hoje, se dois indivíduos, um de classe média e outro de classe baixa, disputassem a mesma vaga em uma universidade pública e fossem reprovados, o de classe média conseguiria investir em uma universidade privada e o de classe baixa voltaria para casa com os seus livros de mais de 15 anos em busca de vários e vários vestibulares, possivelmente, em vão.

Erros existem. Num país que investe apenas 4,2 % do seu PIB na educação não podemos esperar muito das redes públicas de ensino. No entanto, é louvável essa possibilidade de inclusão sócio-educacional objetivada pelo Prouni, pois “estar” em uma universidade dá a oportunidade a milhares de brasileiros de “ser”. E só quem “está” e passa a “ser” pode entender o novo mundo que se abre com mais justiça e dignidade num país de tanta discrepância social.

E assim, de forma iluminada e sábia o ministro-relator, Carlos Ayres de Britto, julgou improcedente o pedido e buscou parte de sua orientação na “Oração aos Moços”, de Rui Barbosa: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. […] Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real”. Ou seja, o que seria a igualdade numa situação de desigualdade?

Que o Prouni abra caminhos para investimentos em uma educação sociabilizante nas bases desse país.

Brasiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiill!!!!

terça-feira, 25 de março de 2008

Galo: 100 anos de paixão



Chiquinho de Assis

Como não falar das paixões. E se falando em futebol, a minha é inequívoca. Gaaaalo!!!! Nem há necessidade em se falar o nome completo, somos tão íntimos que o apelido soa mais sincero do que qualquer formalidade. Galo! É assim que nos conhecem. As pessoas até nos confundem e perguntam “você é galo?”.

Pois é, foi num dia 25 de Março de 1908 que um grupo de 22 garotos, com idade girando em torno dos 13 anos, se reuniram no coreto do Parque Municipal de Belo Horizonte para criarem o "Glorioso". Mas essa história é realmente interessante. 25 do 03 de 1908, 22 garotos com idade média de 13 anos. Esses números podem dizer muita coisa. Vejam só:

2+5=7, 1+9+0+8=18, 18–7=11. Ou seja, o time já estava em campo.

Mas quantos garotos foram? 22, coincidência demais, 2 times para os treinamentos.

Idade média? 13 anos. Ou seja, regidos pelo número do Galo, na jogatina do bicho. Rsrsrsrs.

Mas na nossa anedota numeral faltou o 3, referente ao mês. Tchan, tchan, tchan... Quantas letras têm a sigla do time? CAM, resolvido. Como disse o Dadá Maravilha: “Não venham com a problemática que eu tenho a solucionática”.

E a partir desta data a paixão aflorou, logo veio a fanática torcida. E para a massa, o título e as vitórias são um complemento do êxtase de se vestir a gloriosa camisa, de gritar Gaaaaaalô... Lá estamos, sempre fiéis, sempre em coro, 44 minutos do segundo tempo e ainda acreditamos. Acreditamos no que muitos simpatizantes duvidam. Mas, no nosso caso, temos por onde. Ora, o nosso hino diz “uma vez até morrer”, como a esperança é a última que morre, a nossa torcida transcende a esperança.

Poderia aqui fazer, como muitos fazem, e começar a projetar a simpatia pelo clube numa calculadora que não para de pensar em títulos, participação em torneios, etc. Mas não. Pouco importa se o Galo foi o primeiro Campeão Mineiro, se foi o primeiro Campeão dos Campeões Brasileiros em 1937, se em 1950 foi o primeiro time brasileiro a excursionar pela Europa e voltando como Campeão do Gelo, se tem o título de 1971. Não, pouco importa. Não importa se somos um dos times mais garfados do país, se já fomos vice-campeões invictos, etc. Ah, o que importa é a relação da massa com o galo, o que importa é ensinar ao mundo a fidelidade nos momentos difíceis e a classe invejável na redenção. O que importa é saber que a nossa história é de dor e alegria, um drama de “90 minutos mais acréscimos”, em equilíbrio com a tragédia perfeita, onde o “Mineirão” se torna o Teatro de Epidauro da Grécia, e nós, torcedores apaixonados, nos assemelhamos há um coro grego que julga os feitos dos nossos heróis em campo. Heróis que se antropomorfizam no mito: galo. Guerreiro, de canto profundo, de esporas afiadas e que sabe voar visando o ataque, a vitória sobre a vítima. E por falar em vítima, que não fique triste o rival, ele ainda chegará ao centenário – o bem não vive sem o mal. Mas não nos custa lembrá-lo que a diferença de idade, 100 a 87, já aponta uma vitória histórica cuja subtração é uma feliz coincidência em forma de galo – 13.

Parabéns Galo, 100 vezes aqui renovo a minha história com essa camisa, que como bem disse, o saudoso atleticano, Roberto Drummond “Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”.

Gaaaalô, fiu fiu fiu / Gaaaalô, fiu fiu fiu / Gaaaalô, fiu fiu fiu / Gaaaalô fiu fiu fiu / fiu...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Atenção: Trânsito, Pontes, Ruas, ...


*Foto: Chiquinho de Assis


“Lá vem o Brasil descendo a ladeira [...]”

Ah Ouro Preto, que tristeza...

Pois foi assim. A luta diária da D. Ivone – mulher do Antônio, filho do seu Zé Pobre, lá do São Cristóvão – como acabou? Numa parede da Rua das Flores, com o povo ali, vendo uma pobre senhora, mãe, vítima, agonizando em busca de socorro. Um socorro agonizante que Ouro Preto também pede, grita, chora, e além de tudo, tendo que conviver com essas acidentais desgraças pressagiadas há anos e anos. E mais uma vez a cidade se solidariza, chora, se comove, se indigna, mas e depois? Aberto o sinal, uns e outros com mais outros começam a correr, deslizar, bater e arrombar. Paredes, portas, janelas, trilhos, ruas, ladrilhos, passeios, ruas e escadinhas.

Dias contados? Que medo!!! Que Urucubaca!!!

Há poucos anos um recado foi dado, a capela-passo de Antônio Dias quase se foi na trombada de um ônibus. Como se fosse moda, o chafariz do Pilar por pouco não foi embora na carroceria de um caminhão, e olha que caminhões insistiram. Recentemente, numa mesma semana, três fatos deixaram a cidade preocupada. Na rua da Escadinha um Scort deslizou indo parar nas escadinhas, parte da rua destinada aos pedestres. Num outro dia um caminhão de alimentos desce, sem controle, pela Rua das Flores deixando vítimas, uma fatal. Ainda atordoados com tais acontecimentos, moradores da Rua do Jibu, como que num filme alienígena, puderam ver carros voando e adentrando parede pau-a-pique na calada da noite. Meu Deus, três avisos em sincronia com o que todos nós sabemos. E como dizem os antigos “o pior cego é aquele que não quer enxergar”. E por falar em enxergar, reflitamos...

A conturbada situação a que foram submetidos os moradores da região de Santa Rita, Chapada, Salto, Lavras Novas, e arredores da Estrada Real não serviu de aviso aos gestores do trânsito urbano do município. Por que? Ora, se as pontes seculares da Estrada Real foram interditadas ao trânsito de ônibus e caminhões por risco de desabamento, não é evidente que a Ponte Seca, também secular, corre o mesmo risco? Irá suportar, a referida Ponte, o trânsito cotidiano dos ônibus lotação da cidade? Outro dia, andando lá pelas bandas do Pilar escutei dois senhores, aqui chamados de Jão e Tonin, conversando:

Tonin: – Ô Jão, assim não dá. Vê só esses ônibus passando dessa forma aqui nessa ponte. O negócio foi reformado outro dia, mas a estrutura não vai agüentar, vai cair Jão.

Jão: – Ah, mas é trânsito experimental sô, você não vê a Ponte do Antônio Dias, a Ponte da Rua São José, nelas todas passam ônibus, e elas caíram? Caíram não, sô.

Tonin: – É mesmo Jão. Você tem razão, inclusive na Ponte da Rua São José vai até começar a passar gente lá embaixo com essa história do Horto Botânico.

Jão: É sô. O trem é seguro mesmo!

Tonin: – Mas e nós que caminhamos aqui pela Conselheiro Santana? Agora vamos ter que nos espremer nos muros e passeios pros ônibus passarem?

Jão: – Calma Jão,

Tonin: Parece até que eles estão experimentando se a ponte ficou boa e se o casario do Pilar é resistente!

Jão: – Mas é em fase experimental, Tonin.

Tonin: – Experimental? Brincadeira, né não? Ouro Preto, dizem que é cidade tombada, agora também é experimental? Não posso crer.

Jão: – Mas é pra ajudar Tonin, é um momento experimental, sô...

Tonin: – Ô Jão, acabou que a gente está aqui conversando e eu não estou entendendo é nada.

Jão: – Calma Tonin.

Tonin: – Calma? Depois dessa conversa, eu tô é com vontade de levantar um muro experimental aqui em casa. E sem consultar ninguém. Só pra não ter que ficar assistindo essas lambanças. Pra não ter que ver as pessoas inventando esses trem de “gestão experimental”.

Jão: – Calma sô!

Tonin: – Mas o que você acha do muro?

Jão: – Você é doido Tonin?

Tonin: – Como assim?

Jão: – Você acha que é assim?

Tonin: – Como?

Jão: – Você não pode fazer assim não, meu filho! Você tem que pedir licença. Chamar um profissional pra fazer um projeto, aprovar o projeto da obra. Uai!

Jão: – É, Tonin?

Tonin: É sô. O que você está pensando? A cidade é tombada, mas isso não significa que a cidade tem que tombar, a casa tem que tombar, o caminhão tem tombar, não é não?

Jão: – Será?

Ecos que podem parecer fantasiosos, mas que sobrevoam a cabeça do ouro-pretano que, atordoado, quer ver a sua cidade bem, pois a ama e em vários momentos se vê sem saber o que fazer com as mudanças legais que saem daqui, dali d’acolá. Será que não seria o momento de investirmos numa educação patrimonial que entenda Ouro Preto como uma cidade repleta de particularidades, mas viva? O patrimônio também está nas pessoas do lugar, na sabedoria de um povo que aqui vive e que quer, a todo o tempo, se sentir inserido em um processo transparente e participativo. Participativo não só no que diz respeito ao “cumpra-se”, mas ao “pensemos”, “façamos”, e “zelemos” juntos.

Voltando a um ditado antigo: “Enquanto tem platéia, tem palhaço”. Viva a grande sabedoria mineira. A mineiridade, a prudência pra fazer e a coragem de falar, mesmo que nas entrelinhas. Esta é a nossa “via”. A via do “por sentido no atento”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Carnaval de Ouro Preto: muitas histórias poucos locais

Graffiti: Ciro, Mele.k e Ramar
Foto: Flaviano Souza e Silva
Texto: Chiquinho de Assis

As reclamações estão à solta. Muitas delas, pertinentes e legitimadas por grande parte dos nossos empresários e ou moradores do nosso centro histórico, merecem nossa reflexão. Por isso vamos refletir, não somente com o olhar da preservação, mas com a certeza da cidade viva e que se renova a cada dia. Afinal, não somos Patrimônio Cultural da Humanidade? Uma humanidade caminhante. Não sei se bem ou mal.

Alguns comentários existentes na cidade traçam um mapa antropológico do carnaval de Ouro Preto que vem sendo desenhado ao longo de anos. Dizem por aí:

“– Na Praça Tiradentes aparece as Escolas de Samba, mais avó, sobrinho, cachorro, menino e passarinho”.

“– Na Rua Direita e na Rua Paraná fica a malucada, os bicho grilo”.

“– No Largo do Cinema só dá Morro Santana, Veloso, Piedade, Alto da Cruz, Vila Aparecida, etc”.

“– O Bar Toffolo, de dia é o espaço da família, à noite, a rua é um arco-íris”.

“– A Rua São José? Já foi o seu tempo”.

“– O largo da Alegria é um lugar sem briga. Só toca marchinhas”.

Deixemos a hipocrisia de lado e assumamos, quem nunca fez essa análise e ao longo dos anos não foi se adequando ao espaço que melhor lhe convinha?

Esses adjetivos localizadores mais dividem que precisam. Por exemplo, no Largo da Alegria até Funk tocamos todos os anos, mas todos dizem: “lugar das marchinhas”, e assim o somos. Logo, a situação não é tão fácil de resolver. Além do mais, toda e qualquer ação que vise sanar, modificar ou até mesmo interromper a naturalidade fabricada destes espaços terá que levar em conta sérias razões que contemplem, sobretudo, as múltiplas possibilidades de um entretenimento extensivo e coletivo que é a festa do carnaval.

Pra complicar, muitos dizem que Ouro Preto é uma cidade sem dono, por outro lado, acredito que é uma cidade com muitos donos, o que é bom e paradoxalmente problemático. Dentre os vários problemas, talvez o mais desanimador seja a atitude de alguns dos donos que somente o são no momento do xingar, do criticar, do invalidar, do boicotar, mas não no momento do pensar, do criar, do fazer, às vezes por falta de oportunidade, ou porque não são bem vindos mesmo. “– Cada macaco no seu galho”. Mas em se tratando de muitos donos, o que será que pensam os também donos da cidade moradores do São Cristóvão, do Padre Faria, da Bauxita, do Santa Cruz, do Pocinho, do São Sebastião, enfim, os donos que habitam todos os bairros à margem do Centro Histórico? Será que também têm oportunidade de opinar de forma ampla, pelos meios de comunicação, sobre o nosso carnaval?

Muitos se esquecem de que o tão lembrado Carnaval da Rua São José, no início da segunda metade do século XX, era embalado pelas mãos e pelos tambores dos moradores dos bairros marginais como, por exemplo, o Morro de Santana, nossa mais velha Escola de Samba, 1959. Mas sabe quando foi isso, no “[...] tempo do Carná na Rua São José[...]” como disse o nosso querido Vandico, que continua “[...] Mas hoje o desfile na praça perdeu toda a graça cercando o povão[...]”. E foi assim. As cordas passaram a delimitar o percurso das Escolas de Samba que surgiam pouco a pouco, sendo a última a São Cristóvão 1980. E alguns chiaram. Mas enquanto isso, a Rua São José se transformava, a Janela Elétrica iniciava os seus passos sonoros que tanto inspiraram toda uma geração. Mais tarde na década de 90 a mesma rua já fervilhava. Ir da rua São José à Praça Tiradentes à meia-noite com menos de 40 minutos? Impossível. Isso quando, pelo caminho, as pessoas não tropeçavam umas nas outras encantadas com a Janela Erótica que acabara de surgir. Para outros um atentado ao pudor... E assim fomos até o chamado “Não Carnaval”. Nesse momento não queiram imaginar quantos xingaram a homônima de sobrenome do alferes. Desta vez, a Barra, sempre palco de Gritos de Carnaval se transformou na sede do Carnaval. E xingaram!!!!

Mas veio a mudança no governo. Um novo tempo, novas promessas. Os comerciantes do Centro Histórico, insatisfeitos com a debandada de eventos para a região da Barra agora viam novamente a oportunidade de ver os seus balcões, mesas e cadeiras novamente repletos de clientes. “Só sei que foi assim[...]”. Junto com a volta da euforia comercial não vieram somente os clientes, mas também o Espaço Folia. Ou seja, como a Barra também chiou, veio uma solução: a Praia do Circo e sem palhaçada, hein?! “Hoje tem Espaço Folia? Tem sim senhor!”. Mas como chegou? Qual a obrigação em mantê-lo? Em caso de cancelá-lo, o que se fará com a enorme propaganda, desnecessária, feita em torno desta badalação midiática? Os blocos voltarão a concentrar-se com seus milhares em frente a suas sedes? Ich...

E quanto aos outros espaços?

Há muito que conversar... Lembrando que as ações para a salvaguarda do carnaval de Ouro Preto passarão pelo crivo do não imediatismo, conversemos já. Importante também será conquistarmos uma independência da política majoritária para tratar de algo que afeta a tantos. Um conselho popular seria uma das soluções, mas já houvera, resolveu?

Quanto à Rua São José, quais as propostas para este mito do Carnaval? Digo mito no sentido antropológico da estrutura permanente, de valor intrínseco, sempre atribuído ao passado (LÉVI-STRAUSS 1975:241).

Pois é, cadê o Godot? Não me diga que vai à Parada com Cocteau! Calma Becket!

Vai aqui um apelo e um pedido. Descubramos onde isso tudo começou e encarecidamente não tachemos financeiramente o carnaval genuíno e popular de Ouro Preto. O Candonguêro seleciona o seu público de forma espontânea, através da música e do teatro, e isso têm dado bons resultados. Para finalizar, é importante nos atentar para o fato de que, muitos dos que hoje vaiam, já aplaudiram os lucros advindos da bahianização e da cariocarização do carnaval, esquecendo que junto com a música vem um corpo, um povo, um jeito fabricado pela mídia televisiva e próprio desse som (e aqui nada contra os baianos ou os cariocas). Não façamos de Ouro Preto um pedacinho da Bahia ou do Rio, façamos de Ouro Preto uma cidade inteira onde a diversidade esteja manifesta nos nossos critérios, que, em boa hora, devem ser construídos de forma ampla, democrática e legitimadora. Temos séculos de histórias cativantes e em curso, temos um povo sofrido e forte que caminha durante o ano sobre ruelas lindas e frágeis.

Alegria? É passar o carnaval candongando no largo da felicidade e não saber sequer a melodia do créu. E viva o legítimo carnaval, legítimo porque conquistado e não imposto, muito menos pago pelos foliões. Viva a PAZ no carnaval de Ouro Preto.